Sem palavras, apenas aproveite…
Jóia rara…
Sem palavras, apenas aproveite…
Jóia rara…
Renato R. Augusto
(1982 –
)
Pai
Hoje a oração é calada.
Você já conhece esse olhar
e o melhor jeito de cuidar
Que de lágrima em lágrima vou indo.
Que não há surpresa entre nós.
Se as palavras acabam,
o abraço vale mais.
Desfaz, refaz, os sonhos.
Me leva ao teu cais.
Porque sozinho não consigo.
Mas com você comigo,
eu vou chegar lá.
Fernando Pessoa, 18-9-1933
Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
I
Escuro e frio
Ao som da goteira, ali sentado
Sequer um raio de luz adentrava
Silêncio
O dia passava
Não, muitos dias
Onde estavas
reflexo da minha alma?
II
Algo aconteceu, quebrou a realidade
A porta foi aberta, quanta ousadia!
Surpresa
O olhar meigo, a risada engraçada
Sem pressa, mansa
Preparada
Restava apenas a oportunidade
Que seria criada
III
Será escrito, em breve.
Augusto dos Anjos (1884 – 1914)
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, á noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
Fernando Pessoa
O vapor do asfalto se mistura com as frenéticas luzes da capital. Como todo paulista que se preza, ele escolheu o lugar com a maior fila. Os amigos eram selecionados. Ela veio sem querer. Ele se tornava indiferente, ela sorria falsamente. Se estranhos os vissem diriam que nunca se encontraram antes. Mentira.
A maionese caseira chega fresca à mesa rodeada de assentos comedores de carne. Assuntos antes ordenados se tornaram tiros cruzados que vinham de todas as partes. Ele tentava ser engraçado, ela tentava ser gentil. Mentira.
A noite passa como um estalar de dedos, parecia magia. Na saída nem mesmo um olhar é trocado, a batalha continua. Eles são fortes, não vão jogar a toalha sem lutar. Mentira.
Em seus rostos as máscaras fabricadas com sentimentos logo caem, bastou a falta da presença alheia. Logo, tudo está no chão; suas mentes, seus sonhos, suas lembranças.
Mais uma do metrô…
Dispersão
Mario de Sá Carneiro
(1890 – 1916)
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
Direto do metrô Sumaré. Projeto ‘Poesia no Metrô’.
Soneto
Luis de Camões
1524-1580
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?